Tema 3: a oração e as orações católicas

…Conhecer o sinal da cruz deve despertar outras perguntas sobre a oração. Estou rezando corretamente? Rezo o suficiente? Quando e com que frequência devo rezar? Deus precisa que eu reze a ele?

Os católicos são chamados a rezar: com frequência e, muitas vezes, em comunidade. Por que falar com Deus e como fazê-lo? O que recebemos? O que Deus recebe? Devemos recitar orações ou conversar com ele? Vamos percorrer a oração na fé católica passo a passo, lembrando três pontos: o mais importante é reservar tempo; a melhor maneira de começar talvez seja diferente do que você imagina; e a oração não é tão rígida e estruturada quanto pode parecer.

Como começar uma vida de oração

Deus “precisa” que rezemos? Não. Deus nada precisa de nós. Essa é uma das realidades mais belas da criação e uma lição para nossa vida: como ele não precisava criar, sua criação manifesta um amor gratuito. A graça também é dom gratuito de Deus, cuja iniciativa vem primeiro. Na multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus recebe os poucos alimentos e os devolve multiplicados à multidão. Na missa, apresentamos o pão e o vinho e recebemos o dom incomparável da Eucaristia. Nossa entrega responde à graça: não a compra nem a produz. Deus não precisa de nossa oração; ela nos abre ao encontro com ele e à sua ação em nós.

Isso responde a algumas perguntas fundamentais: Deus não precisa que rezemos, e nós recebemos, entre outros dons, a graça de uma relação mais profunda com ele. Resta perguntar: como sabemos que Deus deseja que rezemos?

Deus quer que rezemos?

Jesus, que é Deus, não apenas ensinou muito sobre a oração, mas rezou de diversas maneiras. Comecemos por sua orientação explícita em Mateus:

E quando orais, não haveis de ser como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a sua recompensa.

Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e, fechada a porta, ora a teu Pai em secreto; e teu Pai, que vê o que se passa em secreto, te dará a paga.

E quando orais, não faleis muito, como os gentios, pois cuidam que pelo seu muito falar serão ouvidos.

Não queirais, portanto, parecer-vos com eles, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, primeiro que vos lho peçais.

Mateus 6,5–8 — tradução do Pe. António Pereira de Figueiredo; ortografia e pontuação atualizadas.

Devemos entender essa passagem como uma orientação para a vida pessoal e cotidiana de oração, não como uma regra absoluta que proíba rezar diante dos outros. Jesus mesmo rezava na presença de outras pessoas. Como em muitas passagens dos Evangelhos, ele repreende a oração vazia e ostentatória dos que parecem dizer continuamente “olhem para mim”, um problema tão atual quanto antigo. Seu chamado é à oração verdadeira, honesta e profunda.

Como rezar

Mais importante do que “como” rezar é reservar tempo. Reserve tempo. Se você se dirige a Deus com sinceridade e abertura, está começando bem. Mas é necessário dedicar-lhe esse tempo.

Podemos procurar nos santos a sabedoria para começar. Um conselho atravessa os ensinamentos de Jesus, dos Atos, das Epístolas, dos Padres da Igreja e dos santos: aquiete-se. O cristianismo não é apenas nossa busca por sabedoria ou por Deus; é Deus que vem ao nosso encontro. Rezar não é discar um número para fazê-lo chegar. Ele já está presente. Deus se fez homem e veio até nós. Ao rezar, reconhecemos aquele que já estava ali.

Talvez não demos importância suficiente a esse silêncio inicial. Nossa mente parece funcionar sempre a toda velocidade. Na Filoteia ou introdução à vida devota, São Francisco de Sales recomenda colocar-se na presença de Deus e pedir sua inspiração. Para a vida moderna, podemos acrescentar uma preparação simples: pare de falar, interrompa a agitação, respire e relaxe. A oração não é você telefonando a Deus, mas finalmente atendendo à sua chamada.

Reunindo elementos da catequese, da tradição e dos ensinamentos dos santos, eis um guia simples:

  1. Faça o sinal da cruz; leia o tema para compreender a força desse gesto.
  2. Aquiete-se e coloque-se na presença de Deus.
  3. Lembre-se de que você existe pelo amor de Deus. Essa é a razão de seu ser.
  4. Reconheça suas faltas e lembre-se de que Deus o chama à perfeição.
  5. Recite uma oração ou converse com Deus de modo aberto e sincero.
  6. Faça o sinal da cruz.
  7. Diga “Amém”, lembrando que significa “assim seja”.

Oração formal e oração espontânea

Ao estabelecer uma rotina diária, por exemplo pela manhã e à noite, procure rezar com reverência e atenção. Isso não é uma regra arbitrária: ajuda a viver a oração de modo mais pleno. Uma postura estável, a concentração e uma respiração tranquila podem ajudar. Essa é a oração em tempo reservado. Você também pode rezar espontaneamente ao longo do dia. Uma pequena história mostra a diferença:

Há muitos anos, um mestre de noviços disse a um grupo de seminaristas: “Lembrem-se: não é permitido mascar chiclete enquanto vocês rezam.” Um deles perguntou: “Mas, padre, podemos rezar enquanto mascamos chiclete?” “Claro”, respondeu o mestre, deixando-os pensando em como cumprir orientações aparentemente contraditórias.

A primeira pergunta tratava do tempo reservado à oração; a segunda, da oração espontânea. Num dia difícil, quando surgem pensamentos ruins, você pode pedir rapidamente a Jesus força para aquele momento. É um hábito excelente. Uma forma, porém, não substitui a outra: ambas têm seu lugar.

Quando e com que frequência rezar

Sempre podemos crescer na oração. Mas é preciso aprender a engatinhar antes de andar. Se começar com exigências excessivas, talvez sua mente se disperse e você acabe apenas repetindo palavras. Isso é diferente de entrar numa devoção mais profunda, o que é muito bom. O objetivo é aproximar-se de Deus, não perder-se em devaneios sobre as coisas do mundo.

Nossa vida de oração deve considerar nosso estado de vida e nossas responsabilidades. Há expectativas razoáveis quanto ao tempo que dedicamos a Deus. Alguns pontos podem ajudar a começar.

Se, no início, só conseguir reservar um momento por dia, faça-o pela manhã. Assim que estiver desperto e em condições de rezar, dedique o dia a Jesus. Ofereça-lhe suas palavras, ações e pensamentos. Agradeça pelas bênçãos e apresente suas intenções: por um amigo doente, pelo país e por outras necessidades.

Procure começar rezando o terço uma vez por semana. Com o tempo, poderá aumentar a frequência. A oração diária do terço é um ideal que pode transformar a mente, o coração e a vida.

Participe da missa! Isso poderia ter sido dito em primeiro lugar, mas às vezes uma pessoa precisa desenvolver uma vida de oração antes de estar pronta para esse passo. A missa é central na vida católica.

À medida que avançar, considere fazer uma hora santa. Ao entrar em sua Paixão, Jesus pediu aos amigos que permanecessem com ele por uma hora.

Procure a adoração eucarística em sua paróquia. É um tesouro frequentemente subestimado: permaneça na presença do Santíssimo Sacramento.

Um equilíbrio entre a oração vocal e a oração mental pode ajudar. A oração vocal inclui o terço, a oração comunitária na missa e a bênção antes das refeições. Na oração mental, você pode falar com Deus interiormente e dedicar-lhe o dia com suas palavras. Pela manhã, pode começar com a oração mental; à noite, recitar a Ave-Maria, o Pai-Nosso ou o terço. Na missa, a escuta, a oração interior e as respostas comunitárias se unem.

Este tema trata do início de uma vida de oração. Quanto mais rezarmos, melhor, mas precisamos crescer gradualmente. Para avançar, considere também a Liturgia das Horas.

Orações católicas fundamentais

As fórmulas abaixo são orações católicas estabelecidas em português, não traduções improvisadas dos textos ingleses. Para as orações tradicionais e os credos, consulte também o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Há pequenas variantes legítimas entre países e livros de oração.

Pai-Nosso

Pai nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso nome;
venha a nós o vosso reino;
seja feita a vossa vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido;
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal. Amém.

Veja também o tema sobre o Pai-Nosso.

Ave-Maria

Ave Maria, cheia de graça,
o Senhor é convosco;
bendita sois vós entre as mulheres,
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte. Amém.

Veja também o tema sobre a Ave-Maria.

Glória ao Pai

Glória ao Pai e ao Filho
e ao Espírito Santo.
Como era no princípio,
agora e sempre. Amém.

Oferecimento da manhã

O Oferecimento diário do Apostolado da Oração é uma fórmula católica em português para oferecer o dia, as orações, o trabalho, as alegrias e os sofrimentos em união com o Coração de Jesus e a Eucaristia. Começa assim:

“Deus, nosso Pai, eu te ofereço todo o dia de hoje: minhas orações e obras, meus pensamentos e palavras…”

Leia e reze a fórmula completa na fonte católica indicada, que a apresenta com referência à aprovação eclesiástica. Ela substitui a fórmula inglesa de oferecimento do artigo original.

Ao Anjo da Guarda

Santo Anjo do Senhor,
meu zeloso guardador,
pois que a ti me confiou a Piedade divina,
hoje e sempre
me governa, rege, guarda e ilumina.
Amém.

Fórmula do Compêndio, apêndice de orações; conserva-se sua redação tradicional.

Credo Niceno-Constantinopolitano

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigênito de Deus,
nascido do Pai antes de todos os séculos:
Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;
gerado, não criado, consubstancial ao Pai.
Por ele todas as coisas foram feitas.
E por nós, homens, e para nossa salvação
desceu dos céus.
E encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria,
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras;
e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai.
De novo há de vir em sua glória
para julgar os vivos e os mortos;
e o seu Reino não terá fim.

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado:
ele que falou pelos profetas.

Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica.
Professo um só Batismo para a remissão dos pecados.
E espero a ressurreição dos mortos
e a vida do mundo que há de vir. Amém.

Fórmula católica do Compêndio, seção “O Credo”, com ortografia brasileira. Veja também o tema sobre o Credo.

Símbolo dos Apóstolos

Creio em Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria;
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado;
desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos céus;
está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo;
na santa Igreja Católica;
na comunhão dos santos;
na remissão dos pecados;
na ressurreição da carne;
e na vida eterna. Amém.

Fórmula do Compêndio, com ortografia brasileira.

Ato de contrição

Meu Deus, porque sois infinitamente bom e vos amo de todo o meu coração, pesa-me de vos ter ofendido e, com o auxílio da vossa divina graça, proponho firmemente emendar-me e nunca mais vos tornar a ofender. Peço e espero o perdão das minhas culpas pela vossa infinita misericórdia. Amém.

Fórmula do Compêndio, apêndice de orações. Para a confissão, também se pode usar uma fórmula aprovada no rito da Penitência; siga a orientação do sacerdote. Uma invocação breve é: “Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador.”

Confesso a Deus todo-poderoso

Confesso a Deus todo-poderoso
e a vós, irmãos e irmãs,
que pequei muitas vezes
por pensamentos e palavras,
atos e omissões,
por minha culpa, minha tão grande culpa.
E peço à Virgem Maria,
aos anjos e santos
e a vós, irmãos e irmãs,
que rogueis por mim a Deus, nosso Senhor.

Fórmula brasileira apresentada em subsídio da CNBB. Na celebração, a assembleia responde “Amém” depois da oração conclusiva do ministro.

Ângelus

V. O Anjo do Senhor anunciou a Maria.
R. E ela concebeu pelo Espírito Santo.
Ave-Maria…

V. Eis a escrava do Senhor.
R. Faça-se em mim, segundo a vossa palavra.
Ave-Maria…

V. E o Verbo Divino encarnou.
R. E habitou entre nós.
Ave-Maria…

V. Rogai por nós, santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos: Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós, que, pela anunciação do Anjo, conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz, sejamos conduzidos à glória da Ressurreição. Pelo mesmo Cristo Senhor nosso. Amém.

Fórmula católica do Compêndio, apêndice de orações.

Salve-Rainha

Salve, Rainha,
mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve!
A vós bradamos,
os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos
a nós volvei.
E, depois deste desterro,
nos mostrai Jesus, bendito fruto
do vosso ventre.
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce Virgem Maria.
Rogai por nós, santa Mãe de Deus,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Fórmula tradicional do Compêndio.

Oração antes das refeições

Abençoai, Senhor, estes dons que vamos receber da Vossa Providência e concedei a todos os pobres do mundo. Amém.

Fórmula apresentada pelo Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio.

As fórmulas tradicionais de oração correspondem aos textos católicos indicados. Pequenas diferenças de ortografia e pontuação não alteram seu conteúdo.

A seguir… A oração que Jesus nos ensinou diretamente: o Pai-Nosso. Vamos examiná-la, linha por linha.

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Síntese

Os católicos são chamados a uma vida rica de oração. Mas não é algo em que se deva mergulhar sem preparação. É importante desenvolver uma vida que nos coloque realmente em encontro com Deus, considerando como e quando rezamos. A oração cresce; não pode ser forçada. O mais importante é reservar tempo e permitir que essa vida cresça de modo adequado.

Leituras recomendadas

Observação: estes três clássicos católicos merecem lugar na biblioteca de todo católico.

Filoteia ou introdução à vida devota, de São Francisco de Sales, Editora Vozes.

Exercícios Espirituais — Escritos de Santo Inácio, de Santo Inácio de Loyola, PAULUS. Título da edição em português.

A noite escura da alma, de São João da Cruz, Edições Carmelitanas.

Imagem de abertura

Obra: Madonna in a Garland of Flowers, de Peter Paul Rubens e Jan Brueghel, o Velho, cerca de 1616–1618. Conserva-se o título do catálogo oficial da Alte Pinakothek; em português, a obra é referida como Madona na Grinalda Floral em catálogo de reproduções artísticas.

O flamengo Daniel Seghers, aluno de Jan Brueghel, o Velho, é associado ao desenvolvimento das naturezas-mortas religiosas com flores. A origem dessa tradição, porém, pode ser reconhecida na colaboração entre Rubens e Brueghel: uma imagem religiosa dentro de outra imagem, cercada de anjos e flores.

Ao contrário de Seghers, Rubens não apresentou Maria e Jesus apenas como figuras históricas ou objetos visuais. Embora a imagem dentro da imagem se prestasse à estilização ilusionista, preferiu transmitir a sensação de sua presença física.

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