Muitos católicos já ouviram de um protestante sincero uma pergunta como: “Você foi salvo por Jesus Cristo?” Talvez não saibam bem como responder. Ao fim deste artigo, proporemos uma resposta afirmativa acompanhada de uma explicação necessária.
A doutrina católica da justificação procura expressar o ensinamento de São Paulo em harmonia com toda a Escritura. Esse tema provocou fortes controvérsias entre católicos e protestantes. Ao responder à ideia da salvação pela fé somente, porém, nenhum católico deve cair no erro oposto: imaginar que pode salvar-se pelas próprias forças. Esse erro está ligado ao pelagianismo.
Três referências para compreender a justificação
A primeira é a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em 1999 pela Igreja Católica e pela Federação Luterana Mundial. Outras comunhões cristãs se associaram posteriormente ao consenso. O documento apresenta um acordo sobre verdades fundamentais da justificação; isso não significa que todas as diferenças doutrinais entre essas Igrejas desapareceram. Há uma apresentação em português no Vademecum ecumênico da Santa Sé.
A segunda é o Decreto sobre a Justificação, do Concílio de Trento. Ele não ensina a salvação por obras realizadas sem a graça. A graça inicial é dom de Deus, não algo que merecemos por conta própria. Os dois links acima apresentam os textos em inglês.
A terceira referência é a história da rejeição do pelagianismo. A Igreja, com destaque para Santo Agostinho e os concílios do início do século V, rejeitou a pretensão de alcançar a salvação sem a necessidade da graça. O artigo Pelagius and Pelagianism, em inglês, oferece uma visão histórica. Ainda que alguns católicos compreendam mal esse ponto, o pelagianismo não é doutrina católica.
O Catecismo, número 2010, explica que ninguém pode merecer a graça inicial do perdão e da justificação. Depois, movidos pelo Espírito Santo e pela caridade, podemos cooperar com a graça e crescer na santificação. A iniciativa e a possibilidade de responder pertencem ao dom de Deus.
Leia São Paulo no conjunto das Escrituras
Comecemos pela conhecida passagem de Efésios:
Porque pela graça é que sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós: Porque é um dom de Deus. Não vem das nossas obras, para que ninguém se glorie.
Efésios 2,8–9 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Lida isoladamente, a passagem pode ser usada para excluir toda relação entre a salvação e a vida moral. Mas precisamos ler também as outras palavras do próprio Paulo:
Mas pela tua dureza, e coração impenitente, entesouras para ti ira no dia da ira, e da revelação do justo juízo de Deus, que há de retribuir a cada um segundo as suas obras. Com a vida eterna por certo, aos que perseverando em fazer obras boas, buscam glória e honra, e imortalidade. Mas com ira, e indignação aos que são de contenda, e que não se rendem à verdade, mas que obedecem à injustiça.
Romanos 2,5–8 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Portanto, meus caríssimos, (posto que sempre fostes obedientes) obrai a vossa salvação com receio, e com tremor, não só como na minha presença, senão muito mais agora na minha ausência.
Filipenses 2,12 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
A Carta de Tiago também nos convida a considerar a relação entre a fé professada e a vida concreta:
Que aproveitará, irmãos meus, a um que diz que tem fé, se não tem obras? Acaso podê-lo-á salvar a fé?
Tiago 2,14 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Não vedes como pelas obras é justificado o homem, e não pela fé somente?
Tiago 2,24 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Voltemos a Paulo e ao seu ensinamento sobre a caridade:
Se eu falar as línguas dos homens, e dos Anjos, e não tiver caridade, sou como o metal que soa, ou como o sino que tine. E se eu tiver o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios, e quanto se pode saber: E se tiver toda a fé, até o ponto de transportar montes, e não tiver caridade, não sou nada. E se eu distribuir todos os meus bens em o sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver caridade, nada disto me aproveita. A caridade é paciente, é benigna, a caridade não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece. Não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal. Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade nunca jamais há de acabar, ou deixem de ter lugar as profecias, ou cessem as línguas, ou seja abolida a ciência. Porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, abolido será o que é em parte. Quando eu era menino, falava como menino, julgava como menino, discorria como menino. Mas depois que eu cheguei a ser homem feito, dei de mão às coisas que eram de menino. Nós agora vemos a Deus como por um espelho em enigmas, mas então face a face. Agora conheço-o em parte, mas então hei de conhecê-lo, como eu mesmo sou também dele conhecido. Agora pois permanecem a Fé, a Esperança, a Caridade, estas três virtudes; porém, a maior delas é a Caridade.
1 Coríntios 13,1–13 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
O que Jesus ensina nos Evangelhos
Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos sepulcros, ouvirão a voz do Filho de Deus: E os que obraram bem, sairão para a ressurreição da vida: Mas os que obraram mal, sairão ressuscitados para a condenação.
João 5,28–29 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto, ou sedento, ou hóspede, ou nu, ou enfermo, ou no cárcere, e deixamos de te assistir? Então lhes responderá ele, dizendo: Em verdade vos digo, todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, a mim o deixastes de fazer. E irão estes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna.
Mateus 25,44–46 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Leia também todo o capítulo Mateus 25. As parábolas e a descrição do Juízo mostram a importância da resposta concreta ao Senhor.
Todos conhecem a passagem de João 3,16:
Porque de tal modo amou Deus ao mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
João 3,16 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Mas observemos também o que vem pouco depois:
E este é o juízo: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Porquanto todo aquele que obra mal aborrece a luz, e não se chega para a luz, para que não sejam arguidas as suas obras. Mas aquele que obra a verdade chega-se para a luz, para que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.
João 3,19–21 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Esses textos mostram o perigo de escolher uma frase e ignorar o contexto. Precisamos considerar a época, a cultura e as demais passagens bíblicas sobre o mesmo tema. A leitura católica busca compreender o conjunto da Escritura em sua unidade, sob a ação do Espírito Santo.
Paulo não contradiz os Evangelhos. A salvação não deve ser tratada como se uma afirmação feita no passado tornasse irrelevante tudo o que fazemos depois. Para aprofundar, veja os artigos originais em inglês sobre fé e obras e sobre a relação entre ambas na salvação. A síntese deste artigo é: somos salvos pela graça, mediante a fé, para as boas obras.
A iniciativa de Deus e o Batismo
Voltemos ao contexto de Efésios 2,8–9 e leiamos os versículos anteriores:
Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela sua extremada caridade, com que nos amou, ainda quando estávamos mortos pelos pecados nos deu vida juntamente em Cristo (por cuja graça sois salvos).
Efésios 2,4–5 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Estávamos mortos pelo pecado e recebemos a vida pela graça de Deus, na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Como essa vida nova nos é comunicada? Diversas passagens ligam a fé, a conversão, o perdão e o Batismo:
O que crer e for batizado, será salvo: o que porém não crer será condenado.
Marcos 16,16 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo, que quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus.
João 3,5 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Pedro, então, lhes respondeu: Fazei penitência, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque para vós é a promessa, e para os vossos filhos, e para todos os que estão longe, quantos chamar a si o Senhor, nosso Deus. Com outras muitíssimas palavras testificou ainda, e os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração depravada. E os que receberam a sua palavra foram batizados; e foram acrescentadas naquele dia cerca de três mil pessoas.
Atos 2,38–41 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Veja também Atos 9,17–18 e 1 Coríntios 12,13, que relacionam o Espírito Santo e o Batismo.
E agora para que te demoras? Levanta-te, e recebe o batismo, e lava os teus pecados, depois de invocar o seu nome.
Atos 22,16 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Vós não sabeis que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Porque nós fomos sepultados com ele para morrer ao pecado pelo batismo: Para que como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Padre, assim também nós andemos em novidade de vida.
Romanos 6,3–4 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
E tais haveis sido alguns: Mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo Espírito do nosso Deus.
1 Coríntios 6,11 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Não por obras de justiça que tivéssemos feito nós outros, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pelo batismo de regeneração, e renovação do Espírito Santo,
Tito 3,5 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
O que era uma figura do batismo de agora, que também vos salva: Não a purificação das imundícies da carne, mas a promessa de boa consciência para com Deus pela ressurreição de Jesus Cristo:
1 Pedro 3,21 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
Então, somos salvos pela graça, pela fé, pelo Batismo ou pelas obras? Esses elementos não são concorrentes. Não merecemos a graça inicial. Deus nos dá gratuitamente a vida nova em Cristo e nos chama a permanecer nela, deixando que a fé produza frutos de caridade.
O autor Sal Ciresi explica essa relação pela imagem da herança: a salvação não é um salário conquistado sem Deus, mas o dom do Pai aos seus filhos. Somos chamados a permanecer em Cristo e a não rejeitar esse dom. Veja Gálatas 5,21; 1 João 3,1; João 15,1–11; Tiago 1,17.
A fé que age pela caridade
A controvérsia histórica entre católicos e protestantes não deve ser reduzida a diagnósticos sobre a personalidade de Martinho Lutero. O essencial aqui é compreender o ensinamento bíblico e católico sobre a graça. O diálogo ecumênico posterior ajudou a esclarecer convergências e diferenças, sem apagar todas as questões ainda existentes.
Não devemos discutir “fé contra obras” como se fossem rivais. Na história de Marta e Maria, por exemplo, a escuta do Senhor alimenta o serviço. O amor a Deus produz o fruto do amor ao próximo. Ao responder à pergunta sobre o maior mandamento, Jesus não termina na primeira resposta; fala também do próximo:
Mestre, qual é o grande mandamento da Lei? Jesus lhe disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o máximo, e o primeiro mandamento. E o segundo semelhante a este é: Amarás a teu próximo, como a ti mesmo.
Mateus 22,36–39 — tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com ortografia e pontuação atualizadas.
A graça que nos salva é um dom que não merecemos por nossas forças. O Batismo nos purifica e nos comunica a vida de Cristo. Somos chamados a perseverar nessa vida com uma fé viva e boas obras, sempre sustentados pela graça de Deus.
Como responder, então, à pergunta “Você foi salvo por Jesus Cristo?” Um católico batizado pode dizer: “Sim, recebi de Cristo a salvação no Batismo e continuo a caminhar na sua graça, procurando perseverar na fé e na caridade.”