Tema 3: como os católicos leem a Bíblia

…A brincadeira fácil aqui seria: “Os católicos leem a Bíblia?”. Nas últimas gerações, os católicos, de modo geral, fizeram um trabalho muito ruim na leitura da Escritura. Isso está mudando. Como você verá, a longa história da Tradição e da Revelação se desenvolveu numa bela compreensão da Palavra de Deus, à qual poucos de nós nos dedicamos.

No que diz respeito à compreensão da Bíblia, há muito a esclarecer desde o início, por três razões: 1) a má aplicação do Vaticano II; 2) a desinformação e os mal-entendidos sobre a história bíblica, tanto entre católicos como entre protestantes; e 3) a simples ignorância bíblica.

Antes de entrar na interpretação, consideremos primeiro como e quando a Bíblia surgiu. DEPOIS, veremos como os católicos leem a Bíblia.

Ao longo do último meio século, os católicos praticamente abandonaram a leitura da Bíblia, mas essa prática começa a retornar com força. Comecemos pela formação da Bíblia, pelo que Jesus disse e fez ao estabelecer a Tradição, pela participação do Espírito Santo e pela maneira como tudo isso nos conduziu à sabedoria necessária para ler a Bíblia nesse mesmo espírito.

Pontos fundamentais

  • A Bíblia inteira foi escrita ao longo de cerca de quatro mil anos.
  • A Bíblia contém livros de gêneros muito diferentes, do histórico ao alegórico, escritos por diversos autores, em línguas diferentes e para públicos diferentes.
  • Quase toda a Bíblia foi escrita depois de uma longa tradição oral associada a cada livro.
  • Jesus nunca mandou ninguém escrever o que ele dizia. Nunca ordenou que alguém escrevesse um livro. Ao contrário do que mostra a excelente série The Chosen, ninguém pensava nisso durante sua vida pública.
  • Depois da crucificação de Jesus, seus seguidores acreditavam que ele voltaria muito em breve. Os primeiros Evangelhos foram escritos não muito tempo depois, mas somente após um período de tradição exclusivamente oral.
  • Jesus DEU autoridade aos Apóstolos para ensinar e transmitir a fé. Também enviou o Espírito Santo para inspirar e desenvolver essa Tradição.
  • A Igreja veio ANTES da reunião dos livros do Novo Testamento. Foi a Igreja Católica que reuniu a palavra escrita, discerniu o que deveria integrá-la e continua a ter a autoridade de Jesus e do Espírito Santo para compartilhar seus ensinamentos com o mundo.
  • O Antigo Testamento deve ser lido inteiramente em relação a Jesus.
  • Há dois mil anos, a Igreja Católica possui o Magistério, a autoridade para interpretar autenticamente a Escritura, que conduziu a uma bela e contínua revelação de Deus.

Como e quando a Bíblia surgiu

Um bom ponto de partida para compreender as origens da Bíblia está neste vídeo original, em inglês:

Poderíamos passar incontáveis horas discutindo os quatro mil anos necessários para chegarmos à Bíblia que conhecemos hoje, mas o vídeo acima oferece, por enquanto, uma síntese. O ponto essencial é que se trata de uma coletânea literária extremamente ampla, escrita em estilos muito diferentes, ao longo de épocas distintas, para públicos diversos, em tempos e lugares diferentes.

Como os católicos leem a Bíblia

Agora vamos olhar para a Bíblia inteira e tentar resumir a maneira como a compreendemos. Haverá algumas generalizações, mas elas devem oferecer uma boa estrutura para entender a abordagem católica:

  • O Antigo Testamento é a história da criação de Deus e de sua relação com seu povo escolhido, Israel.
  • À medida que o Antigo Testamento se desenvolve, sucedem-se os relatos da graça de Deus e das falhas de Israel em prestar-lhe o “louvor correto”. Não leia essas histórias, algumas bastante violentas, de maneira estritamente literal. Embora por vezes tenham fundamento histórico, isso raramente importa tanto quanto a mensagem que procuram transmitir. Há um estilo e um método na forma como essas histórias foram transmitidas. Considere o vídeo a seguir:
  • O Antigo Testamento contém relatos que vão dos fortemente alegóricos aos míticos e históricos, entre outros. O foco deve estar em perceber como a relação de Deus com seu povo se desenvolve.
  • Embora usemos diferentes abordagens interpretativas para os diversos livros da Bíblia, devemos sempre compreender que Deus é seu autor último, que se serve do homem para revelar sua Palavra.
  • Existem dois conceitos a ter em mente ao olhar para a Bíblia como um todo:
    1. Não confunda o que está explicitamente NA Bíblia com o que a Bíblia ENSINA. A escravidão, o assassinato, o adultério e outras realidades aparecem por toda a Bíblia. São elementos reais daquele mundo e também do mundo atual, que fazem parte de uma narrativa compreensível aos leitores.
    2. Quando alguém pergunta “Como você lê a Bíblia?”, considere a pergunta como se fosse “Como você lê a biblioteca?”. A inadequação é a mesma.

Voltemos a Dom Robert Barron para um exemplo referente a um livro específico, o Gênesis, e à nossa abordagem de interpretação. O vídeo está em inglês:

Visão geral da Bíblia católica

A Bíblia católica reúne o cânon de 73 livros reconhecido pela Igreja Católica, dividido em duas grandes partes: o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Segue uma breve visão geral, do começo ao fim.

O Antigo Testamento

Pentateuco: cinco livros

Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

No início do Gênesis, Deus cria o mundo por amor e por meio da “Palavra”. Deus deseja que o amemos e o conheçamos, mas o homem é infiel repetidas vezes. O pecado cresce, mas a graça também. O relato da criação nos conduz a Adão e Eva, histórias familiares tanto aos cristãos como aos não cristãos. O Gênesis contém muitos dos relatos que conhecemos desde a infância. Abraão é o patriarca da nova relação de Deus com seu povo, que prossegue até seu neto Jacó, cujo nome será mudado para “Israel”. Assim, temos Abraão, depois Isaac, depois Jacó e, mais adiante, Josué.

Os doze filhos de Jacó dão origem às doze tribos de Israel. Eles precisam se mudar para o Egito, onde tudo vai bem por algum tempo, até que uma mudança de governo leva à escravização do povo.

Moisés conduz os israelitas para fora do Egito. Deus é fiel ao seu povo e o constitui como nação, entregando a Moisés os Dez Mandamentos. Ele ensina seu povo a adorá-lo corretamente, a prestar-lhe o “louvor correto”.

Depois do Gênesis e do Êxodo, chegamos ao Levítico, que trata das leis e dos ritos que o povo deve seguir para prestar esse “louvor correto”.

Números descreve novas infidelidades do povo durante sua peregrinação pelo deserto, mas Deus continua a cuidar dele.

Deuteronômio apresenta Moisés, já próximo da morte, transmitindo sua sabedoria e suas instruções ao povo.

Os cinco primeiros livros podem ser resumidos como o estabelecimento da relação de Deus com seu povo e a luta desse povo, como descendentes de Adão e Eva decaídos, para permanecer fiel.

Livros históricos: dezesseis livros

Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, 1 Macabeus e 2 Macabeus.

Moisés morreu, e surge um novo líder do povo de Israel: Josué. Como observação interessante, esse nome tem a mesma origem que “Jesus”. Josué conduz o povo à Terra Prometida, entrando nela quando Deus divide o rio Jordão, assim como fizera na saída do Egito. O livro de Josué nos mostra que precisamos ter fé em Deus e que ele nos conduzirá aonde precisamos ir. É uma forte prefiguração de Jesus.

Israel está agora na Terra Prometida, e Juízes nos leva a uma época em que surgem líderes necessários para defender Israel de seus inimigos.

Chegando aos livros de Samuel, encontramos Israel exigindo um rei. Deus não aprova a princípio, mas permite isso depois de fazer suas advertências. O povo recebe Saul, que começa bem, mas não permanece fiel. Depois, Deus envia seu profeta, e Davi surge como novo rei. Davi é antepassado direto de Jesus Cristo em sua linhagem. É um grande rei, mas também comete pecados terríveis. No entanto, arrepende-se deles.

Salomão, filho de Davi, possui muitas qualidades, mas também ama em excesso as coisas do mundo. O reino se divide em duas nações, ao norte e ao sul: o Reino de Israel e o Reino de Judá. Uma série de reis sucede a Salomão, e suas histórias são narradas nos livros dos Reis.

Crônicas fala da devastação dos dois reinos, e Israel chega a ser escravizado e levado para longe.

Embora seu povo tenha sido infiel, Deus continua a ouvi-lo. O restante dos livros históricos trata de muitas das provações e tribulações do povo de Deus durante o cativeiro.

Livros sapienciais: sete livros

Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico.

Deus explica diretamente a seu povo como prestar-lhe o “louvor correto”. Jó contém a mais longa dessas conversas entre um homem e Deus no Antigo Testamento. O livro de Jó é especialmente associado ao problema do mal nas discussões filosóficas e teológicas.

Os Salmos são belos cânticos sobre nossa relação com Deus. A maioria desses cânticos tem a forma de lamentações, e sua autoria é atribuída principalmente a Davi.

Provérbios reúne a sabedoria do povo de Deus ao aprender a ser fiel. Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico continuam esse tema.

Livros proféticos: dezoito livros

Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

“Profeta” significa “porta-voz”. Nos livros proféticos, Deus fala a seu povo por meio de mensageiros específicos.

Grande parte do que os profetas dizem nesses livros se refere, explícita ou implicitamente, à salvação e ao Messias que virá salvar seu povo. Durante boa parte desse período, os israelitas continuam escravizados, e fala-se de um Messias que virá resgatá-los.

No início do Novo Testamento, os israelitas imaginam que o Messias será um líder militar que virá libertá-los de seus opressores terrenos. Jesus, porém, transforma completamente essa expectativa ao mostrar que veio salvá-los do pecado.

O Novo Testamento

Os quatro Evangelhos

Mateus, Marcos, Lucas e João.

Os Evangelhos são a parte mais importante da Escritura para os católicos, pois relatam em primeira mão a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

O cenário é Israel sob domínio romano. Além disso, os líderes religiosos da época usaram sua interpretação da Lei para criar uma sociedade em que os pobres e os doentes eram afastados de Deus. Influências de diferentes culturas distanciaram ainda mais o povo de Israel de seu Deus. As multidões esperam que o Messias, Christós em grego, venha salvá-las dessa situação, o que imaginam que ocorrerá pela força militar.

Mateus, Marcos e Lucas são chamados de Evangelhos “sinóticos”, pois relatam a vida, a morte e a ressurreição de Jesus de maneira semelhante. João foi escrito um pouco mais tarde e num estilo muito mais místico. Como observação, todos os Apóstolos foram martirizados, exceto João, que viveu uma vida longa.

Os Evangelhos têm muito material em comum, mas cada um contém elementos próprios e se dirige a públicos diferentes. Mateus foi escrito para os judeus; Marcos falou aos romanos; Lucas, como grego, dirigiu-se aos gregos; e João falou a todos. Como seu Evangelho veio depois, João pôde conhecer o conteúdo dos outros Evangelhos, preencher algumas lacunas e escrever um Evangelho para o mundo.

“Evangelho” significa “Boa-Nova”, do grego euangelion. A seguir, apresentamos uma visão geral de seu conteúdo, sem pretender abranger tudo o que eles contêm:

O anjo Gabriel vai ao encontro de Maria para anunciar que ela dará à luz um menino especial. As palavras deixam claro que será o Messias. Ele também lhe diz que sua prima Isabel está grávida, e o menino será João Batista.

Jesus nasce da Virgem Maria na cidade de Belém. Um exército de anjos aparece nos céus, e tanto os magos de terras distantes como os pastores das proximidades são avisados, de formas diferentes, do nascimento desse menino especial. A presença desses dois grupos na história mostra que o Messias é para todos.

Avançando no relato, Jesus se apresenta a João Batista. João o chama imediatamente de Cordeiro de Deus, uma referência à Páscoa do Antigo Testamento. Os céus se abrem nesse momento, e Deus expressa sua satisfação, numa referência ao início do Gênesis, quando criou o mundo.

Jesus então vai para o deserto durante quarenta dias, onde é tentado por Satanás. É a isso que se refere nosso tempo da Quaresma. Depois de enfrentar Satanás, volta e começa a chamar seus Apóstolos. “Apóstolo” significa uma pessoa enviada; o texto original ilustra essa ideia com a palavra inglesa post, de correio. Os Apóstolos chegam a doze, como as tribos de Israel.

Agora Jesus fala ao povo e revela sua missão pouco a pouco. Fala com a autoridade de Deus, o que enfurece os líderes religiosos. Dirige-se a todos, especialmente aos pobres e aos doentes. Os “pobres” são os mais mencionados nos Evangelhos. No Sermão da Montanha, oferece um guia para o “louvor correto”.

Ele cura os doentes, os cegos, os paralíticos e outros. Naquela época, os doentes eram impedidos de entrar no Templo e, assim, ficavam separados de Deus. Jesus chega a ressuscitar mortos, em três relatos diferentes dos Evangelhos, que simbolizam a cura do pecado em diferentes estados. O vídeo original a seguir, em inglês, oferece uma boa explicação de como Jesus afetava as pessoas à sua volta:

Jesus às vezes ensina diretamente, mas muitas vezes por meio de parábolas, que transmitem uma sabedoria que continua a se revelar até hoje.

Durante sua breve vida pública, ele escolhe Pedro para conduzir sua Igreja. Pedro torna-se o primeiro papa da Igreja Católica, numa linha de sucessão que permanece até hoje, diretamente a partir do próprio Jesus. Ele também dá sua autoridade aos Apóstolos, para que a transmitam e convertam o mundo.

Em dois relatos muito importantes dos Evangelhos, a multiplicação dos pães e dos peixes para alimentar as multidões e a parábola do filho pródigo, Jesus nos ensina como atua a graça divina: ela é dada por Deus e, uma vez recebida, só pode ser mantida se for partilhada. Quando é partilhada, retorna a quem a deu em medida ainda maior.

Quando Jesus começa a explicar a Santa Eucaristia, seu Corpo e Sangue, usa uma linguagem muito explícita e precisa repetir sua mensagem. Afirma que é necessário comer seu Corpo. Muitos seguidores se afastam, e ele repete suas palavras e põe Pedro à prova. Pedro responde com fé que não irão embora, pois Jesus tem a chave da vida eterna. Essa é uma parte fundamental da Escritura, que será examinada em profundidade mais adiante.

Antes dos acontecimentos que o conduzem à crucificação, Jesus reúne os Apóstolos, dá um novo significado ao vinho e ao pão e institui o sacramento da Eucaristia.

À medida que sua missão cresce, também aumentam seus opositores. A oposição assume formas diversas, que simbolizam os pecados deste mundo. Seus amigos o traem e o negam; os líderes religiosos o rejeitam e o conduzem à sentença de morte. Ele morrerá na cruz, por causa dos pecados de todos nós.

Ao terceiro dia, em cumprimento das Escrituras, ele ressuscita dos mortos. A Ressurreição é fundamental para a história de Jesus: sem ela, o cristianismo desmorona. Ele aparece não apenas aos Apóstolos e discípulos mais próximos e à sua mãe, mas também a muitos outros que darão testemunho disso, e muitos serão mortos por esse testemunho. Só assim o cristianismo poderia ter se espalhado: pela fé plena em Jesus, nascida da Ressurreição. Havia muitos profetas naquela época, mas nenhum voltou dos mortos; por isso, suas mensagens desapareceram. Os que viram Jesus ressuscitado tinham uma fé tão profunda que a maioria morreu por essa crença ao anunciar a Boa-Nova.

Por fim, o Espírito Santo, prometido por Jesus, manifesta-se aos discípulos no que chamamos de Pentecostes. A partir daí, recebem a capacidade de anunciar sua mensagem ao mundo.

Atos dos Apóstolos

Antes de deixar os Apóstolos, Jesus lhes diz que é melhor para eles que ele vá, pois assim poderá enviar seu “Defensor”, o Espírito Santo. Escrito por São Lucas, que também escreveu o Evangelho que leva seu nome, Atos conta como os Apóstolos, depois de receberem o Espírito Santo, passam a anunciar a Boa-Nova de Jesus.

No início de Atos, o Espírito Santo desce sobre os Apóstolos de Jesus e outros discípulos próximos, no acontecimento chamado Pentecostes. Todos os que o recebem são inspirados por uma nova maneira de pensar, que na época chamavam de “o Caminho”.

Os líderes judeus pensavam ter resolvido a questão dos seguidores de Jesus. Depois de Pentecostes, porém, os Apóstolos, começando por Pedro, demonstram energia sem limites e batizam milhares de pessoas. O testemunho da Ressurreição e o fervor dos discípulos são tão fortes que os seguidores não temem o martírio, o preço de aderir ao “Caminho”, e o enfrentam com alegria.

As tensões crescem enormemente, não apenas nas terras judaicas, mas por todo o mundo romano, onde os “cristãos” são automaticamente condenados à morte. Aqui encontramos um jovem rabino chamado Saulo, fariseu muito devoto, que acreditava que os primeiros cristãos tentavam destruir a Lei judaica. Ele os perseguia com dureza, convencido de realizar a obra de Deus.

A caminho de Damasco, em busca de alguns fiéis, Saulo cai do cavalo, fica cego e ouve Jesus falar com ele. As palavras de Jesus são muito importantes: ele pergunta a Saulo “por que me persegues?” (Atos 9,4; tradução do Pe. António Pereira de Figueiredo). Não diz “meus seguidores” nem algo semelhante. Ao subir aos céus, Jesus entrou no Corpo Místico da Igreja, ao qual somos convidados a nos unir. É um momento muito importante na história da Igreja.

Saulo torna-se Paulo, São Paulo, e vem a ser o missionário mais importante de toda a história da Igreja Católica. Como cidadão romano, judeu e rabino muito instruído, consegue evangelizar por toda a região.

Pedro recebe uma visão que o leva a compreender que essa mensagem se destina a todos, não apenas aos judeus. Depois da visão, batiza um centurião romano. Paulo leva essa evangelização aberta a todos para suas viagens, e a missão da Igreja Católica passa a dirigir-se a todos os povos.

A partir daí, Atos prossegue com dois temas: 1) a missão de Paulo de anunciar a Palavra a todos; e 2) os esforços de Pedro para estabelecer os fundamentos da Igreja.

Em conjunto, Atos mostra como a Igreja Católica se formou nas bases daquilo que é hoje. As viagens de Paulo tornam-se decisivas nesse processo, pois suas cartas às comunidades que visitou constituem uma parte importante da seção seguinte do Novo Testamento: as Epístolas.

As treze cartas paulinas

Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filêmon.

Hebreus e as sete cartas católicas

Hebreus; Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João e Judas.

As Epístolas, ou “cartas”, são escritas principalmente por Paulo e tratam da formação da Igreja, de questões de fé, de administração e de teologia, além de ensinar o caminho de Jesus.

Romanos é a carta de maior densidade teológica entre as atribuídas a Paulo. Ela trata de nossa obsessão por adorar o mundo em vez de Deus. É uma obra abrangente que aprofunda a graça salvadora de Deus e a maneira como podemos caminhar para o “louvor correto”.

As cartas aos Coríntios são fascinantes, pois Corinto, naquela época, era como uma Las Vegas moderna em seu pior aspecto. O capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios é uma das passagens mais eloquentes de toda a Escritura.

As cartas a Timóteo estão entre os primeiros exemplos da necessidade de a Igreja contar continuamente com novos líderes.

Tiago é um guia admiravelmente conciso e prático para lidar com as pessoas deste mundo como cristão.

As cartas de Pedro orientam sobre como compartilhar a fé com aqueles que nos procuram para perguntar sobre a Igreja.

Apocalipse

Ao contrário da crença popular, o Apocalipse não é um livro deprimente sobre um “Deus irado”, como o apresentam muitos pregadores inflamados e a cultura moderna. “Apocalipse” significa revelação, retirada do véu. É um livro profundamente simbólico: a visão de João sobre como Deus vem nos salvar.

O vídeo original abaixo, em inglês, apresenta uma excelente síntese de como os católicos leem a Bíblia:

A seguir… Vamos nos aprofundar na Escritura para descobrir de onde vêm as práticas e as crenças católicas.

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Síntese

Nas últimas gerações, os católicos não cultivaram bem a leitura da Bíblia. A Bíblia não caiu pronta do céu. Boa parte do Antigo Testamento já existia havia algum tempo, mas o Novo Testamento foi escrito depois da época de Jesus. A Igreja desenvolveu-se primeiro; DEPOIS, a Igreja Católica organizou aquilo que constitui o Novo Testamento. Os católicos adotam uma abordagem ampla de interpretação, conscientes de que a Bíblia abrange milhares de anos e foi escrita em estilos muito diferentes. Além disso, leem o Antigo Testamento sabendo que todo ele prepara a vinda de Jesus.

Leituras recomendadas

Bíblia Sagrada — Tradução do Pe. Manuel de Matos Soares, Editora Ecclesiae. Uma edição católica tradicional em português para a leitura integral da Sagrada Escritura.

Bíblia de Navarra: Novo Testamento: Santos Evangelhos, Quadrante Editora. Edição em português com comentários para o estudo dos quatro Evangelhos.

Bíblia de Navarra: Novo Testamento: Atos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse, Quadrante Editora. Volume complementar para estudar o restante do Novo Testamento.

Imagem de abertura

Obra: São Jerônimo em seu estudo, oficina de Marinus van Reymerswaele. Referência do título em português e registro da imagem e atribuição à oficina.

São Jerônimo, um dos Padres da Igreja, revisou as traduções latinas dos Evangelhos e dos Salmos para o papa Dâmaso I entre 382 e 384. São Jerônimo foi um dos poucos temas pintados por Van Reymerswaele, que o representou diversas vezes, com muitas repetições.

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